sábado, 13 de abril de 2013

SENTIMENTALISMO DO SOL POENTE





Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos…

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos…

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto…
Hão de falar os teus cabelos brancos…
Guilherme de Almeida

quinta-feira, 21 de março de 2013

UM PEDAÇO DE SAIGON




Tantas palavras
Meias palavras
Nosso apartamento
Um pedaço de Saigon
Me disse adeus
No espelho com batom

Vai minha estrela
Iluminando
Toda esta cidade
Como um céu
De luz neon

Seu brilho silencia
Todo som
Às vezes
Você anda por aí
Brinca de se entregar
Sonha pra não dormir

E quase sempre
Eu penso em te deixar
E é só você chegar
Pra eu esquecer de mim

Anoiteceu!
Olho pro céu
E vejo como é bom
Ver as estrelas
Na escuridão
Espero você voltar
Pra Saigon

Tantas palavras
Meias palavras
Nosso apartamento
Um pedaço de Saigon
Me disse adeus
No espelho com batom

Vai minha estrela
Iluminando
Toda esta cidade
Como um céu
De luz neon

Seu brilho silencia
Todo som
Às vezes
Você anda por aí
Brinca de se entregar
Sonha pra não dormir

E quase sempre
Eu penso em te deixar
E é só você chegar
Pra eu esquecer de mim

Anoiteceu!
Olho pro céu
E vejo como é bom
Ver as estrelas
Na escuridão
Espero você voltar
Pra Saigon


(em memória do cantor Emílio Santiago 
que faleceu ontem)
Vencedor de diversos festivais de música, 
Emílio iniciou a carreira na década de 70 e 
gravou grandes sucessos como "Saygon", 
"Lembra de mim" e "Verdade chinesa". 
No 
DIA MUNDIAL DA POESIA
escolhi este poema cantado
pois tem a ver com a minha recente visita a
SAIGÃO (Ho Chi Minh), no Vietnam.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

AMENDOEIRAS (EM FLOR)



FEVEREIRO

Todos os anos venho fazendo planos de no mês de Fevereiro 

ir dar um passeio para ver as 

AMENDOEIRAS EM FLOR 

este ano também planeei, só que, por outros motivos já não vou...

a Esperança não morre e, mais um ano vou esperar, 

para poder realmente ir onde isso acontece, 

seja no norte ou sul de Portugal. 

Só que, pensando nisso lembrei-me desta foto que captei, 

na ALDEIA DE ALTE, no Algarve, 

em homenagem ao advogado, POETA e dramaturgo 

FRANCISCO XAVIER CÂNDIDO GUERREIRO.



Amendoeiras
Em Fevereiro, quando lá de cima
Deus, com a tinta de luar, escreve
Seus lindos versos algarvios, rima
A flor das amendoeiras com a neve…

Neve em flor! Sonho! Alvura! Quem descreve
O noivado irreal que se aproxima,
Pão branco, tão diáfano, tão leve,
Que nem talvez na música se exprima?

- Meninas da primeira comunhão,
Ascéticas, descendo da montanha
À beira do caminho em procissão,

Em vias-lácteas de perfume brando,
Oiço-vos bem a sinfonia estranha,
- Porque, amendoeiras, vós estais cantando…
Cândido Guerreiro

Portugália Editora, Lisboa, 1943


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A MINHA VIDA É UM BARCO ABANDONADO





A MINHA VIDA É UM BARCO ABANDONADO


A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da ação sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'



segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

BOAS FESTAS




Natal é época de...


deixo ao vosso critério a continuação da frase.
...
Porque do Natal eu só gosto de:
a inocência das crianças
a alegria dos seus olhinhos
a lealdade dos seus corações.
Para mim o Natal pouco ou nada me diz.
Perdi o brilho no olhar
Perdi o calor do coração
Perdi a alegria do reencontro
Porque nessa noite, já não tenho presente fisicamente
algumas pessoas muito queridas para mim:
Meus Pais
meus Tios António e Albertina
meus Tios Zézinho e Adelaide
que faziam parte dos meus natais de infância
e, mais recentemente
a minha sobrinha Tânia
que partiu muito cedo deste mundo.
...
Para alguns Natal é:
Natal é planear uma noite diferente, um instante iluminado. 
Natal… é ansiar por instantes de alegria e de conforto, 
na presença escolhida a dedo de pessoas que fazem parte das nossas vidas. 
Presentes e mais presentes
(postal feito por mim, adaptei uma foto minha)

domingo, 9 de dezembro de 2012

COMO PASSAREI SEM PONTE






Mote

Vai o rio de monte a monte,
Como passarei sem ponte?


Voltas

É o vau mui arriscado,
Só nele é certo o perigo;
O tempo como inimigo
Tem-me o caminho tomado.
Num monte está meu cuidado,
E eu, posto aqui noutro monte,
Como passarei sem ponte?

Tudo quanto a vista alcança
Coberto de males vejo:
D'aquém fica meu desejo
E d'além minha esperança.
Esta, contínua, me cansa
Porque está sempre defronte:
Como passarei sem ponte?
 
(Francisco Rodrigues Lobo)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

ILUSÃO PERDIDA - PABLO NERUDA


 
Ilusão Perdida

Florida ilusão que em mim deixaste
a lentidão duma inquietude
vibrando em meu sentir tu juntaste
todos os sonhos da minha juventude.
 
Depois dum amargor tu afastaste-te,
e a princípio não percebi. Tu partiras
tal como chegaste uma tarde
para alentar meu coração mergulhado

na profundidade dum desencanto.
Depois perfumaste-te com meu pranto,
fiz-te doçura do meu coração,

agora tens aridez de nó,
um novo desencanto, árvore nua
que amanhã se tornará germinação.

Pablo Neruda, in 'Cadernos de Temuco'
Tradução de Albano Martins