domingo, 1 de julho de 2012

CAMPOS DE ARROZ



Nunca tinha desfolhado folhas de papel de arroz
nem sabia que de tão finas nunca se colavam .
Olhou-as,  folhas plenas de figuras, chamavam-lhe letras,
e essas,  ela não conhecia .
Em lombadas vivas e largas
em papel pardo, adormecia de olhos abertos
ouvia sons e notas de ouvido,  fugidas de cor
Agri-doce
Começou a desfolhar folhas de papel de arroz, descoladas
o odor era adocicado, e inalava-o com uma força extrema
Lânguida se deixou levar  para mundos de bambu
arrozais que não secavam
Sapatos de panos em pés de gueixas
Agri-doce
Tentava fixar os sentidos, o tacto era suave nas folhas
rude na capa .
Entre folhas de papel de arroz e capas de cartão…
misturava sentidos .
Agri-doce.
Docemente desfolhou folhas de papel de arroz,
misturou tudo em arrozais húmidos.
Apurou o ouvido e ouviu sem som, folhas que se desfolhavam
leves por não pesarem
brancas
Imaculadas
Compressas em duras capas de cartão prensado
Pés atados de gueixa
repisavam folhas de papel de arroz 
Agri- doce

(Teresa Maria Queiroz)




(2 fotos de campos de arroz perto de Chiang Mai - Tailândia)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

CAMPO DE LÍRIOS






Trouxe-me um tempo que tinha
de renda um campo de lírios.
Deitei-me à sombra do vento,
à deriva da brancura
que a chuva chorou de terra
e enterrou em semente
comigo, num outro tempo.
Fiquei num tempo pisado
pela ceifa da colheita
e o ânimo que me ensaia
ergue-me à proa da fuga,
agarro-me ao vento e cravo
as esporas da contramão
que sigo com o meu fado.
Subo a eito, ascendo a prumo,
encho o peito e me consumo
na atmosfera viciosa
onde pelejo torturas
que me assombram o regresso
ao campo outrora vingado
de colheitas proveitosas...
Não sou desse tempo agora.
Trouxe-me um tempo que chora
sobre lírios não plantados...

sábado, 16 de junho de 2012

SORRISO TURVO





Vivo das lágrimas e da poeira da estrada, 
que se entranha nos olhos
e me tolhe das águas do rio onde nasci;
sorriso turvo nas algas de dias escorregadios
e flores de sol onde nascem ameias estranhas;
corro atrás das nuvens e percorro ruas desertas.
Se soubesse dos dias, estarias mais perto.
(Susana Duarte)


sexta-feira, 8 de junho de 2012

DIA MUNDIAL DOS OCEANOS



OCEANO NOX


Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...

Antero de Quental, in "Sonetos"





O oceano Atlântico apresenta uma forma semelhante à letra S.
Sendo uma divisão das águas marítimas terrestres, o Atlântico é ligado ao oceano Ártico (que em algumas vezes é referido como sendo apenas um mar do Atlântico), a Norte,
ao oceano Pacífico, a Sudoeste,
ao oceano Índico, a Sudeste,
e ao oceano Antártico, a Sul.
(Alternativamente, ao invés do oceano Atlântico ligar-se com o oceano Antártico, pode-se estabelecer a Antártida como limite sul do oceano, sob outro ponto de vista).
A linha do Equador divide o oceano em Atlântico Norte e Atlântico Sul. Com um terço das águas oceânicas mundiais, o Atlântico inclui mares como o Mediterrâneo,
e o mar das Caraíbas (Caribe).

No DIA MUNDIAL DOS OCEANOS
apresento duas fotos do oceano Atlântico, na ponta de Sagres;
bem como uma poesia de Antero de Quental, a acompanhar.

sábado, 2 de junho de 2012

PERMANÊNCIA DA POESIA




PERMANÊNCIA DA POESIA


Quando a luz desaparecer de todo,
mergulharei em mim mesmo
e te procurarei lá dentro.

A beleza é eterna.
A poesia é eterna.
A liberdade é eterna.

Elas subsistem, apesar de tudo.
É inútil assassinar crianças.
É inútil atirar aos cães os que,
de repente,
se rebelam e erguem a cabeça olímpica.

A beleza é eterna.
A poesia é eterna.
A liberdade é eterna.

Podem exilar a poesia:
exilada, ainda será mais límpida.
As horas passam,
os homens caem,
a poesia fica.

Aproxima-te e escuta.
Há uma voz na noite!

Olha:
É uma luz na noite!

(Emílio Moura)

terça-feira, 29 de maio de 2012

PERMANÊNCIA



PERMANÊNCIA


       Não peçam aos poetas um caminho.

O poeta

         não sabe nada de geografia celestial.
        
Anda aos encontrões da realidade

         sem acertar o tempo com o espaço.
        
Os relógios e as fronteiras não tem

         tradução na sua língua.

Falta-lhe

         o amor da convenção em que nas outras

         as palavras fingem de certezas.

         O poeta lê apenas os sinais

         da terra.

Seus passos cobrem
         apenas distâncias de amor e
         de presença. Sabe
         apenas inúteis palavras de consolo
         e mágoa pelo inútil. Conhece
         apenas do tempo o já perdido; do amor
         a câmara escura sem revelações; do espaço
         o silêncio de um vôo pairando
         em toda a parte.
         Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe
         — morto redivivo.


         Tudo é simples para quem
         adia sempre o momento
         de olhar de frente a ameaça
         de quanto não tem resposta.
         Tudo é nada para quem
         descreu de si e do mundo
         e de olhos cegos vai dizendo:
         Não há o que não entendo.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

AURORA - ADOLFO CASAIS MONTEIRO



AURORA

         A poesia não é voz - é uma inflexão.
         Dizer, diz tudo a prosa. No verso
         nada se acrescenta a nada, somente
         um jeito impalpável dá figura
         ao sonho de cada um, expectativa
         das formas por achar. No verso nasce
         à palavra uma verdade que não acha
         entre os escombros da prosa o seu caminho.
         E aos homens um sentido que não há
         nos gestos nem nas coisas:

         vôo sem pássaro dentro.


         (Vôo sem Pássaro dentro, 1954)