domingo, 19 de fevereiro de 2012

SONHO INTERMINÁVEL DAS SEREIAS



CANÇÃO NA PLENITUDE


Não tenho mais os olhos de menina

nem corpo adolescente, e a pele

translúcida há muito se manchou.

Há rugas onde havia sedas,

sou uma estrutura

agrandada pelos anos e o peso dos fardos

bons ou ruins.

(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)


O que te posso dar é mais que tudo

o que perdi: dou-te os meus ganhos.

A maturidade que consegue rir

quando em outros tempos choraria,

busca te agradar

quando antigamente quereria

apenas ser amada.


Posso dar-te muito mais do que beleza

e juventude agora: esses dourados anos

me ensinaram a amar melhor, com mais paciência

e não menos ardor, a entender-te

se precisas, a aguardar-te quando vais,

a dar-te regaço de amante e colo de amiga,

e sobretudo força — que vem do aprendizado.


Isso posso te dar: um mar antigo e confiável

cujas marés — mesmo se fogem — retornam,

cujas correntes ocultas não levam destroços

mas o sonho interminável das sereias.


O texto acima foi extraído do livro "Secreta Mirada",

Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

CONVITE - LYA LUFT



Convite


Não sou a areia

onde se desenha um par de asas

ou grades diante de uma janela.

Não sou apenas a pedra que rola

nas marés do mundo,

em cada praia renascendo outra.

Sou a orelha encostada na concha

da vida, sou construção e desmoronamento,

servo e senhor, e sou

mistério.


A quatro mãos escrevemos este roteiro

para o palco de meu tempo:

o meu destino e eu.

Nem sempre estamos afinados,

nem sempre nos levamos

a sério.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A VIDA CONDUZIDA POR UM FIO DE MÚSICA




Lembro-me de ti

Nesse instante absoluto,

A vida conduzida por um fio de música.

Intenso e delicado, ele vai-nos fechando num casulo

Onde tudo será permitido.


Se é só isso que podemos ter,

Que seja forte. Que seja único.

Tão íntimo quanto ouvirmos a mesma melodia,

Tendo o mesmo - esplêndido - pensamento.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

CANÇÃO DAS MULHERES



JANEIRO 2012


HOJE descubri alguém, que me deixou fascinada - LYA LUFT

Passei os olhos na sua Biografia, em algumas das suas obras e em muitos dos seus escritos e, decidi que vou divulgar LYA LUFT nos próximos posts.

De tudo que hoje li, escolho para começar a CANÇÃO DAS MULHERES.


CANÇÃO DAS MULHERES


Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.


Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.


Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.


Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.


Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.


Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.


Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.


Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''


Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.


Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.


Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.


Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa:

vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.
Lya Luft

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

PÉS DESCALÇOS



" Tivesse eu as roupas bordadas do paraíso
tecidas com luz dourada e prateada
o azul e o escuro e os negros panos da noite
e a luz e as metades luzes
Eu espalharia essas roupas sob os teus pés
Mas, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos
Eu tenho espalhado os meus sonhos sob teus pés
Por isso, pise suavemente, afinal
Você está andando sob meus sonhos."


Willian Bluter Yeats foi um dos mais importantes poetas da língua inglesa.

Sua poesia revela um romantismo culto e uma originalidade dramática incomparável. Entre seus poemas há uma pequena composição, chama-se "He Wishes for the Clotls of Heaven".

(poema retirado da net - foto minha)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

CORETO DA CIDADE DE TAVIRA



O Coreto da cidade de Tavira,

foi construído em 1890 conforme se documenta:

"Fabricado na cidade do Porto, pela firma Fundição do Ouro,

chegando a Tavira, por via marítima, já em 1890.


De planta centralizada octogonal e linhas flexíveis,

situa-se no coração do jardim,

sendo testemunho da denominada "arquitectura do ferro" oitocentista".



Sentimentos

São guardados

em caixas pretas

Naufragando

em seus pedaços.

Poetas e poemas

Esquecidos em seus coretos


Entre nós
apenas havia olhares,
um fulminante desejo…


o percurso das nossas sombras,
fechou-se,
numa pancada de eco vazio.


Saltou como um pássaro livre
e, desapareceu
na escuridão da noite
na penumbra do coreto.


Eu era apenas uma sombra
que não sabia distinguir
o sol da madrugada
e o calor da tua alma.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

POETA ISIDORO MANUEL PIRES



Jornalista e Poeta 1894 - 1958

Nasceu na Praça da Alagoa em 12 de Janeiro de 1894

Vice-Presidente da Câmara em 1923/25

e Presidente entre 1937-1939

Isidoro Pires foi notável jornalista e fundador do Povo Algarvio


No Jardim de São Francisco há duas pedras com versos de sua autoria.

1961 -- Publicação do livro "Versos"

História: Como Presidente de Câmara tomou muitas iniciativas culturais nomeadamente a criação da Banda Musical de Tavira (1925)

e a construção do Parque Municipal -- recinto de recreio e cultura-- no Alto de Santa Maria (Palácio da Galeria).



Maria toma cuidado

vê onde pisas o chão!...

se dás um passo mal dado

pisas o meu coração.



ALMA PORTUGUESA

Tão grandes são os feitos portugueses,
De tão honrosa fama a sua história,
Que parecem um sonho; e, muitas vezes,
Nem sonhando se vê tanta vitória!

Lutar co’o ignoto Mar, meses e meses,
Do qual só vinham monstros à memória,
Para dar entre p’rigos e reveses
Novos mundos ao Mundo – é uma glória!

E se olharmos p’r’à Gente Brasileira,
(Que apenas pelo nome é que é estrangeira!)
Palpitante de vida e luz do Céu;

Sentimos, com orgulho de nobreza,
Ser grande demais a Alma Portuguesa
Para caber na terra onde nasceu!...

(in: “Versos”/1961)